quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Excelência dos Mestres

Ao me deitar percebi que seria mais uma torturante e longa noite de insônia, pois, apesar do cansaço físico devido ao longo dia de trabalho, estava completamente desperto, possivelmente causado pela ansiedade e preocupações do momento. Dito e feito. Enquanto a madrugada corria pude recordar um pouco da minha infância.
A década de oitenta foi muito inspiradora na minha vida. Minha formação política vem, a maior parte, desta época. Lembro que sempre briguei por meus direitos e pela democracia. Certa vez na creche em que estudava, a mesma que posteriormente fui membro do conselho deliberativo, na primeira semana de aula em um dos anos que estudei na mesma, um amiguinho passou minha frente enquanto me despedia de minha avó no portão na hora da entrada. Não pensei duas vezes, saquei minha esteira (uma espécie de tapete de palha que servia para forrar o chão para se sentar, muito pouco visto hoje em dia) e dei-lhe umas cinco ou seis "esteiradas". Creio que a tia Cida, que estava na porta, depois de separar a briga, não viu com bons olhos este meu ato de defesa pelos meus direitos e me pôs de castigo na hora do recreio. Claro que meu amiguinho não se machucou, pois a esteira é leve, mas também não lembro dele ter entrado na minha frente depois disso, não sei porque. Esse foi um dos primeiros protestos que lembro ter feito, não só na creche (sim, por que houve outros movimentos nesta mesma creche), mas em toda a minha vida.
Meus professores... ah meus professores... Sou realmente um sujeito de sorte. Todos os professores que passaram por minha vida foram essenciais na minha formação, pois além de formarem academicamente davam verdadeiras aulas de vida. Detalhe importantíssimo, sempre estudei em colégio publico. Já na época, a educação pública era sucateada, mas o que admirava era a força de incentivar a conquistar nossos espaços e brigar por qualidade de vida e uma sociedade mais justa. Era fabuloso os debates promovidos em sala de aula sobre uma falcatrua ou outra cometida pelos governantes. Até na educação física, espaço pouco utilizado pelos educadores para concientização de alunos, conosco acontecia.
Conseguem imaginar um grupo de adolescentes em média de doze anos parando em frente a uma banca de jornal para ler as notícias do dia, principalmente as políticas? Em qualquer outro lugar de primeiro mundo talvez seria muito comum, mas não aqui no Brasil, ainda mais se esse grupo de jovens fossem oriundos de favelas. Isso era raridade. Também era só para ler porque ninguém tinha dinheiro para comprar o jornal. Deste grupo de jovens alguns já são graduados e temos sociólogo com mestrado, uma pedagoga e alguns ocupando lugares de liderança nas empresas em que trabalham. Claro que nem todos foram vitoriosos, já tivemos perdas de amigos a qual não temos mais contato, também já tivemos amigos assassinados por terem sido ludibriados pela violência em suas diversas bifurcações, outros contribuem para o grupo dos "tô nem aí", e por aí vai.
Devido a esta boa sorte era comum ouvirmos as pessoas dizerem que não parecíamos moradores de favela devido a nossa postura, a forma que nos expressávamos e etc. Por um lado ficávamos contentes em saber que todo este tempo dedicado pelos nossos Mestres não foi em vão, que eles conseguiram desempenhar bem seus papéis de educadores, por outro lado ficávamos tristes em saber que Mestres assim estavam em extinção caso contrário não ouviríamos estes comentários, ou pelo menos não com tanta frequência.
Já na fase adulta não me sentia uma excessão da comunidade onde morava, nem me intitulava "um dos intelectuais da favela" como ouvi de um estudante de história, morador da comunidade, em uma reunião na época numa infeliz colocação. Fico pensando o que significa ser intelectual... Será que é o cidadão que se dedica aos estudos? O que os intelectuais, pós-doutores, diriam se lhes contasse que minha avó, a D.Tereza, portuguesa, filha do campo, morreu com quase oitenta anos analfabeta e era a mesma quem me corrigia os deveres na infância? Talvez diriam: "-Precisamos analisar as metodologias utilizadas por esta senhora, considerando o contexto social, para sua compreensão espacial, paralelamente devemos avaliar a metodologia programática pedagógica aplicada pela sociedade na época". E se isto fosse dito a um matuto e perguntado como seria possível, provavelmente ele responderia: "se tratando de criança basta ver o caderno, o que estiver escrito a caneta é o dever que a tia passou, o que estiver a lápis é a resposta da criança, se não houver nada escrito a lápis é porque a criança não fez o dever". Minha avó me revelou isso quando eu era adolescente e tentei alfabetizá-la e só então perguntei como ela corrigia minhas lições.
Não digo que é errado dedicar-se as ciências, pelo contrário, creio que seja de extrema necessidade. O errado é menosprezar a capacidade intelectual das pessoas por estarem na acadêmica, ou ter idade inferior a sua, ou cargo ou qualquer coisa que nos faça achar que somos superior ao nosso próximo. Certa vez li uma frase que não me recordo onde e nem que escreveu, mas trago comigo até hoje, que dizia: "quando acharmos que sabemos de algo é sinal que estamos perto não sabemos nada".
O respeito e o amor são as chaves para a evolução.


Cristiano Figueiredo

2 comentários:

  1. Todo mundo tem um mestre dentro de si. Toda pessoa que é capaz de entrar na vida de alguém e ensinar alguma coisa, uma sequer, que a outra pessoa leve para o resto da vida é um mestre.
    Infelizmente não pude conviver tanto com nossa avó quanto você, mas meus pai sempre dizem o quanto ela era incrível e sábia. A sabedoria não tem padrões.
    Adorei seu blog, poste sempre que puder!
    Beijos

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  2. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse Amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse Amor, nada disso me aproveitaria. O Amor é paciente, é benigno; o Amor não é invejoso, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal, não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O Amor nunca falha. Havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.
    Cristiano, bjus no coração...continue na sua busca ...se reinventando...sempre seguindo o caminho correto, mesmo que o mundo diga que vc esta errado, VC NAO ESTA
    BOA NOITE
    NIQUE

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